Prêmios de Excelência da FIDE: homenageando aqueles que estão transformando o xadrez
Primeiros FIDE Excellence Awards: reconhecimento às pessoas e conquistas que moldam o xadrez moderno
O xadrez é muito mais do que partidas disputadas diante do tabuleiro, medalhas e rankings. Por trás de cada grande torneio estão organizadores, treinadores, federações, criadores de conteúdo, projetos sociais e milhares de pessoas que ajudam o jogo a crescer e a alcançar novos públicos.
Foi justamente esse lado do xadrez que a FIDE decidiu destacar. Em Samarcanda, durante a 46ª Olimpíada Mundial de Xadrez, foi realizada a primeira cerimônia dos FIDE Excellence Awards, um novo programa bienal que reconhece conquistas de destaque tanto diante do tabuleiro quanto fora dele.
Os prêmios abrangeram o período de setembro de 2024 a agosto de 2026 e apresentaram um amplo retrato do xadrez contemporâneo — de jovens talentos e grandes equipes a torneios, federações, iniciativas sociais e criadores de conteúdo que ajudam milhões de pessoas a descobrir o jogo.
Por que a FIDE criou o novo prêmio
Os FIDE Excellence Awards foram criados em 2026 como um programa bienal destinado a reconhecer pessoas, equipes, torneios, federações, criadores de conteúdo e projetos que contribuem de forma significativa para o desenvolvimento do xadrez.
Desde o início, porém, os organizadores destacaram que o programa deveria ir além dos resultados puramente esportivos.
A premiação contou com 11 categorias — seis principais e cinco especiais. As indicações contemplaram conquistas de jogadores e equipes, organizadores de torneios, federações nacionais, projetos sociais e criadores de conteúdo.
Dessa forma, a FIDE ampliou o conceito tradicional de sucesso no xadrez. A vitória de um grande mestre em um torneio importante continua sendo fundamental, mas o desenvolvimento do jogo também depende das pessoas que trabalham ao seu redor.
Essa ideia foi destacada durante a cerimônia por Viswanathan Anand. Segundo ele, por trás de cada grande jogador existe uma ampla rede de pessoas — desde treinadores e federações até árbitros, organizadores, patrocinadores, promotores e profissionais da mídia.
Juventude, experiência e novas histórias de sucesso
Um dos primeiros prêmios foi o Best Breakthrough (Rookie of the Year), entregue a Yağız Kaan Erdoğmuş, um dos jovens enxadristas mais destacados da nova geração.
A categoria reflete uma das principais tendências do xadrez moderno: jogadores cada vez mais jovens estão alcançando o mais alto nível e, em um período muito curto, passando de promissores juniores a participantes de competições de elite.
Outra história importante foi a volta de um jogador experiente ao mais alto nível.
O prêmio Best Comeback foi entregue a Levon Aronian, reconhecendo uma nova fase de sucesso em sua longa carreira.
Assim, surgiu uma espécie de diálogo entre gerações: o programa voltou sua atenção tanto para jogadores que estão apenas começando suas trajetórias quanto para aqueles que há muitos anos fazem parte da elite mundial do xadrez.
Índia é reconhecida por suas conquistas coletivas
Na categoria Best Team, foram premiadas as seleções nacionais masculina e feminina da Índia.
O principal destaque do período foi a histórica vitória das duas equipes indianas na Olimpíada de 2024, em Budapeste. Depois disso, as seleções continuaram apresentando resultados de alto nível no cenário internacional.
O prêmio também é importante porque os sucessos coletivos são diferentes das conquistas individuais.
Os torcedores frequentemente acompanham jogadores específicos, mas a Olimpíada mostra outro lado do jogo: o resultado final depende da interação entre vários atletas, capitães, treinadores e toda a estrutura federativa.
Prêmio especial em memória de Daniel Naroditsky
Um dos momentos mais emocionantes da cerimônia foi a entrega do primeiro Daniel Naroditsky Best Creator Award.
A categoria Best Creator recebeu o nome do grande mestre americano Daniel Naroditsky, conhecido não apenas como forte jogador de xadrez, mas também como treinador, comentarista e criador de conteúdo.
Naroditsky tinha uma rara capacidade de explicar ideias complexas do xadrez de maneira simples e acessível, aproximando do jogo pessoas que estavam apenas começando a conhecê-lo.
A FIDE decidiu preservar esse aspecto de seu legado por meio do novo prêmio. O primeiro vencedor do Daniel Naroditsky Best Creator Award foi o ChessBase India. O vencedor também recebeu uma vaga no próximo Naroditsky Memorial, em Charlotte.
Dessa forma, o prêmio não representou apenas o reconhecimento a um autor ou projeto de mídia. Ele também conectou o desenvolvimento do conteúdo de xadrez ao legado de uma pessoa que transformou a popularização do jogo em uma parte importante de sua atuação profissional.
Os melhores torneios: o xadrez como evento global
A FIDE também dedicou várias categorias aos torneios de xadrez.
Na categoria Best Tournament (Open), o prêmio principal foi para o Qatar Masters Open. O segundo lugar ficou com o Grenke Freestyle Chess Open, enquanto o Sharjah Masters ficou em terceiro.
Na categoria Best Tournament (Round Robin), o vencedor foi o Norway Chess. Na sequência apareceram a Sinquefield Cup e a Cairns Cup.
Um destaque especial foi a criação de um torneio feminino com premiação igual à masculina dentro do Norway Chess.
Isso mostra que um torneio de xadrez moderno pode ser avaliado não apenas pela força do elenco ou pelo nível esportivo. O formato da competição, seu impacto mais amplo sobre o xadrez e sua contribuição para ampliar oportunidades para diferentes grupos de jogadores também podem ter importância.
A federação como força motriz do desenvolvimento do xadrez
Na categoria Best Federation, o prêmio foi para a Federação de Xadrez do Uzbequistão. Na sequência ficaram a Federação de Xadrez do Cazaquistão e a All India Chess Federation.
A escolha teve um significado particularmente simbólico em Samarcanda.
Nos últimos anos, o Uzbequistão vem desenvolvendo ativamente sua infraestrutura enxadrística, organizando grandes competições internacionais e apoiando suas seleções nacionais.
A própria cerimônia dos Excellence Awards foi realizada no país durante um dos maiores eventos do xadrez em 2026 — a Olimpíada, que reuniu em Samarcanda um total de 400 equipes: 208 na competição aberta e 192 na competição feminina.
O xadrez para além do esporte profissional
Uma das categorias mais representativas foi a de Best Chess Initiative.
O prêmio principal foi para o projeto Chess in Schools and Communities, seguido por Chess for Freedom e The Gift of Chess.
Esses projetos demonstram até onde o xadrez pode chegar para além das competições profissionais.
O jogo é utilizado em programas educacionais, iniciativas sociais e projetos voltados a diferentes comunidades. Nesse contexto, o tabuleiro deixa de ser apenas um espaço de competição e passa também a ser uma ferramenta de aprendizagem, comunicação e integração social.
A mesma tendência apareceu em outros eventos da FIDE em Samarcanda. Em setembro, a organização realizou programas específicos dedicados ao uso do xadrez na educação e em projetos sociais.
Reconhecimento aos jogadores com deficiência
Uma categoria específica foi dedicada ao Best Chess Player with a Disability.
O prêmio foi entregue a Lukáš Novák, enquanto Lukáš Turlej o recebeu em seu nome.
A existência dessa categoria destaca outra tendência importante: o xadrez internacional está ampliando sua inclusão de jogadores com diferentes necessidades e capacidades.
Isso foi especialmente relevante em Samarcanda, onde, paralelamente à Olimpíada principal, foi realizada a terceira FIDE Chess Olympiad for People with Disabilities. A competição contou com 41 equipes.
Reconhecimentos especiais
A primeira edição do programa não se limitou às categorias principais.
Um reconhecimento especial foi concedido à Bundesliga, uma das ligas nacionais de xadrez mais conhecidas do mundo.
Além disso, a FIDE reconheceu o FIDE America Social Initiatives Program 2025, realizado por meio da CCA Diversity Commission. No âmbito do programa, foram concluídas 14 iniciativas em 11 países da América do Norte e da América do Sul, com foco na integração social e no desenvolvimento de projetos de xadrez.
Isso reforça mais uma vez o princípio central da nova premiação: a atenção não está voltada apenas para aqueles que ocupam o centro dos holofotes durante os maiores torneios.
Por que esses prêmios são importantes para o xadrez
A primeira cerimônia dos FIDE Excellence Awards tornou-se uma espécie de retrato da comunidade enxadrística contemporânea.
Jovens talentos e lendas, seleções nacionais e jogadores individuais, grandes torneios e iniciativas sociais, federações e criadores de conteúdo dividiram o mesmo palco.
É justamente aí que está a principal característica dos novos prêmios.
O xadrez existe graças a um ecossistema muito mais amplo do que apenas 64 casas e dois adversários. Alguém cria as condições para a realização dos torneios. Alguém ensina crianças. Alguém organiza transmissões e explica partidas para milhões de espectadores. Alguém utiliza o xadrez no trabalho com grupos socialmente vulneráveis. Outros passam anos construindo sistemas de treinamento e desenvolvimento de jogadores.
Todos esses elementos, juntos, formam a cultura enxadrística moderna.
Samarcanda deu início a uma nova tradição
A primeira cerimônia dos FIDE Excellence Awards terminou em Samarcanda, mas a história do prêmio está apenas começando.
A FIDE planeja realizar o programa a cada dois anos, alinhando seu ciclo de premiação às Olimpíadas de Xadrez. A próxima edição, portanto, avaliará um novo período de desenvolvimento do xadrez mundial.
A primeira cerimônia apresentou uma ideia central: a excelência no xadrez nem sempre pode ser medida pelo rating Elo ou pelo número de partidas vencidas.
Às vezes, ela se manifesta de outras formas — quando uma criança tem a oportunidade de conhecer o xadrez, quando um torneio de nível mundial é criado, quando um atleta recebe apoio, quando um novo público descobre o jogo ou quando o xadrez é utilizado como ferramenta de educação e comunicação.
Por isso, os primeiros FIDE Excellence Awards foram mais do que uma nova cerimônia de premiação. Eles representaram uma tentativa de reconhecer todo o ecossistema do xadrez — as pessoas e os projetos que permitem que o jogo continue crescendo muito além do próprio tabuleiro.